Uma história de Natal...
Era uma vez há muito, muito tempo uma menina de lindos caracóis castanhos e olhos amendoados, que vivia com a sua avó materna, pois os pais tinham morrido durante uma cheias do rio que atravessava a sua aldeia.
A menina, que só tinha cinco anos, pouco se lembrava dos seus pais, no entanto achava estranho os seus amiguinhos terem uma família e ela só viver com a sua velha avó, que era muito pobre e quase cega.
O Inverno chegava ao seu ponto culminante - o Solestício de Inverno - e todos se preparavam para festejar a festa natalícia. A menina já ouvira falar do velhote das barbas brancas que trazia prendas para todos os meninos que se tivessem portado bem ao longo do ano. E isto porque se festejava o nascimento de um menino, que se tornara um homem de luz e que morrera na cruz, porque os homens que estavam no poder não tinham gostado mesmo nada do que ele ensinava aos mais humildes e a todos os que se aproximavam dele. A menina era ainda muito pequena para perceber a verdadeira dimensão desta história, mas sabia que esse menino tinha sido muito importante, muito especial. A avó contava-lhe, ao serão, que esse menino também tinha sido muito pobre, mas que isso não o impedira de receber prendas, pelo nascimento. Isso mantinha a chama acesa da esperança dentro da garota, que sonhava todas as noites com o Pai Natal a entrar pela chaminé da sua casa e a deixar-lhe uma linda boneca de olhos azuis e cabelos de côr-de-palha. Ela não pedia muito: só a boneca dos seus sonhos, que a sua avó não lhe poderia dar e sobre a qual não tinha qualquer conhecimento.
O dia de Natal chegou.Nevava muito, pois a aldeia da menina ficava situada num alto de uma montanha. Mas, nessa manhã, não houve frio ou neve que a mantivessem debaixo dos grosseiros cobertores de lã que a tapavam. Saltando da cama, enfiou as suas botas e correu para a sala, onde estava a lareira na esperança de encontrar o seu sonho.
Mas... não havia boneca nenhuma! Havia, sim, um casaco tricotado pela sua avó e uma meias grossas para usar na rua.
A desilusão foi profunda e, após o espanto inicial, a menina foi refugiar-se num canto escuro da casa, num vão de escadas, onde chorou muitas lágrimas de desgosto. Porque não tinha ela direito à sua boneca? Porque o Pai Natal não tinha ido à sua casa? Que mal ela fizera para não usufruir da mesma alegria dos meninos seus amigos? Ela não entendia: ou o Pai Natal era mau, ou a má era ela. E, depois de muito pensar, acabou por acreditar na segunda hipótese. A sua avó foi encontrá-la, ainda sentada no vão das escadas, às escuras, com as lágrimas quase congeladas nas maçãs do seu rosto,mas nada do que disse pôde servir de consolação à sua neta.
Esse dia decorreu muito triste. A garota recusou-se a comer e a ir brincar com os amiguinhos. Como é que ela lhe iria dizer que não recebera o que pedira? Era humilhação demais, mesmo para uma menina de cinco anos!
Anoiteceu. A avó acendeu a lareira, muito a custo, e a menina ficou a olhar para as chamas, que dançavam alegremente, aquecendo gradualmente o ambiente e o seu coração gelado. A certa altura, pareceu-lhe descortinar o rosto de uma senhora de cabelos de fogo, que lhe sorriu e lhe disse que se fosse deitar, pois o Natal, para ela, ainda não acabara. Apesar de muito espantada, a menina sentiu a esperança voltar a sorrir-lhe e decidiu acatar a sugestão da visão. Despediu-se da avó com um beijo e foi para a sua cama. Mal se cobrira com os cobertores quando, para seu grande espanto, viu formar-se, mesmo à sua frente, uma bola de luz e, dentro dela, viu sair uma linda menina, igualzinha à boneca dos seus sonhos. Atónita, com os olhos muito arregalados, a menina nem conseguiu produzir qualquer tipo de som, muito menos ainda quando aquela lhe diz, com um belo sorriso: “Olá, eu sou a Lori, a tua nova amiga. Eu sou aquela por quem pediste ao Pai Natal, mas que ele não podia ter trazido, porque só lhe é permitido trazer brinquedos. Eu não sou um brinquedo, mas sim a tua nova amiga de brincadeiras. No entanto, não me podes mostrar aos teus amigos. Eu posso brincar convosco, mas só tu me vais poder ver. Queres que eu seja a tua nova amiga?”.
A menina estava deliciada e sem voz. Nunca lhe passara pela cabeça ter uma amiga de brincadeiras tão bonita e simpática e, ainda por cima, invisível. Não se continha de tão contente, mas, de repente, ficou muito atrapalhada, pois não sabia como iria brincar com ela, já que não podia agarrar nela, nem pentear-lhe os lindos cabelos. E, depois, o que iria dizer aos seus amigos? Ela teria que falar com ela, quando estivesse com eles. O que pensariam os seus amigos?
Lori voltou a sorrir. Ela ouvia os pensamentos da menina, porque ela era uma fada disfarçada de boneca. A sua rainha, que sabia da vida dura da menina e do seu sonho, condoída pelo seu desgosto, enviara-a até ela para a ajudar a crescer com muita alegria, para que a esperança não morresse no seu pequeno coração. Assim, sossegou-a, dizendo que todos os meninos iriam aceitar e gostar de ter uma amiga invisível, que os ajudaria a criar brincadeiras muito mais divertidas do que as proporcionadas por todos os brinquedos do mundo.
A menina respirou, profundamente satisfeita. Cheia de sono, aconchegando-se nos seus cobertores, e com o mais belo sorriso nos lábios, desejou boa noite à sua nova e especial amiga e agradeceu ao menino que nascera há tanto tempo e que trouxera a luz ao mundo, por lhe ter dado a oportunidade de ter como companheira de brincadeiras tão linda, resplandecente e especial boneca.
E, assim, adormeceu. Adormeceu em paz consigo mesma e com todo o Mundo, que agora via de novo com os olhos de uma criança feliz e confiante em milagres, como só uma criança sabe fazer.
in "Histórias da Vó Lu"
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Manlau, o diabinho bonzinho
Manlau nascera num subúrbio de uma grande cidade, uma zona aparentemente simpática, mas perigosa de visitar. Todos os forasteiros que atravessassem a cerca que o rodeava acabavam por regressar com um vidro partido, os pneus furados ou um farolim partido. Isto se fossem de carro, porque quem ia a pé arriscava-se a voltar sem carteira, com a roupa rasgada ou até com a cabeça ou uma perna partida. Assim, era muito raro alguém atrever-se a visitá-lo, depois de ter ganho má fama. Isto porque se tratava de um subúrbio habitado por diabos vermelhos!!!
Manlau era mesmo um diabinho! Pequeno, rechonchudo, sempre com um fato vermelho colado ao corpo, que o cobria da cabeça aos pés. Era escuro, de tez bastante morena, olhos muito escuros e brilhantes e um ar simpático para diabo. À partida parecia igual a todos os outros diabos, mas não era. Além de ser bastante bonzinho, apesar de traquinas, Manlau tinha um único corno saído do meio da testa, enquanto que os outros tinham dois, como qualquer diabo que se preze. Por outro lado, a cauda dos diabos normais era bem comprida e afiada (fazia doer imenso quando chicoteava alguém), enquanto que a de Manlau era pequena, muito pequena, não podendo ele fazer qualquer maldade com ela, mesmo que fosse muito tentado.
Apesar de descriminado, o diabinho não era infeliz. Não sentia qualquer vontade de fazer maldades e adorava passar os dias na biblioteca a ler tudo o que por lá aparecia, apesar de nem sempre lhe agradar o que lia. É que a maior parte dos livros e revistas falava de vampiros, de bruxos e respectivos bruxedos, de hard rock, de assaltos, mortes, guerras, lugares sujos e escuros, de sofrimento e ódio. Por mais que se esforçasse, não encontrava nada mais leve. Quanto aos filmes era a mesma coisa. Os diabos só gostavam de ver coisas horrorosas.
Manlau, contudo, não estranhava muito, pois não conhecia outra realidade. O problema era sentir um desconsolo vindo do fundo de si mesmo e que não era capaz de identificar.
Os diabos seus pais não lhe ligavam nenhuma; os professores detestavam--no porque ele era o pior aluno possível nas diabruras, os colegas gozavam-no, faziam-lhe partidas horríveis, batiam-lhe, mas ele não era capaz de ser igual aos outros. Às vezes doía-lhe muito a cabeça, no local em que tinha o corno; parecia que latejava e que ele queria saltar, sobretudo quando se sentia completamente desajustado da realidade em que vivia.
E a vida ia acontecendo e Manlau crescendo.
Um dia, teria ele já uns dez anos, o diabinho bonzinho levantou-se da cama totalmente aparvalhado. Parecia-lhe ter sonhado com um ser, também de fato vermelho, mas totalmente diferente de si, porque era muito branco, de longas barbas brancas e uns olhos azuis muito brilhantes e malandros. Manlau não tinha a mínima suspeita de quem fosse, porque nunca saíra da sua zona residencial, nem para ir fazer maldades aos da cidade vizinha. “Quem poderia ser?”, perguntou-se ele milhentas vezes. Tinha a certeza de que sonhara com ele a chamá-lo. E, curiosamente, sempre que a imagem do velho vinha à sua mente, o corno cintilava, como que a sintonizar-se. Nesse dia nem se atreveu a sair do quarto, não fosse alguém ver a luz e tentar fazer-lhe alguma! Naquela família de diabos nem com a mãe podia contar.
O dia passou-se e a noite chegou. Demasiado excitado com a situação, Manlau não conseguia dormir, por isso sentou-se à janela a ver a neve a cair sobre os campos, as árvores, as casa e os diabos mais atrevidos, que saíam à rua embrulhados nos seus mantos negros para passarem desapercebidos na noite.
De repente pareceu-lhe ver surgir um vulto grande vestido de vermelho. E o mais engraçado é que vinha num carro puxado por uns animais estranhos, com os cornos maiores e mais entrançados que ele já vira! O seu coração deu um valente salto e o corno iluminou-se, trazendo-lhe a mais forte dor de cabeça que ele já sentira. Meio combalido, dirigiu-se à varanda do quarto e olhou com mais atenção, completamente esquecido da luz que saía da sua testa e que parecia um farol na escuridão. E... era ele!!! Um velhote alto, forte, todo vestido de vermelho, com barbas brancas e um belo sorriso no rosto e que trazia consigo uma criança aparentemente da sua idade, bem agasalhada num manto de lã azul, bordado a ouro, com caracóis fartos e loiros. No ombro do menino vinha um ser muito pequenino, com asas, muito cintilante, exuberante e com uma varinha na mão. Manlau não sabia o que dizer, pensar ou fazer. Quem seriam aquelas personagens e o que quereriam dele?
Inconscientemente, Manlau convidou-os a entrar no seu quarto vermelho e preto, que emanava um ligeiro cheiro de incenso de enxofre, que a mãe usava todos os dias. Não lhe parecia que o ambiente fosse o adequado para aqueles visitantes, mas não havia outro. E quando se ia preocupar com o facto do carro poder ser visto pelos vizinhos e veraneantes nocturnos, viu que este se tinha tornado totalmente invisível.
O velho e a criança entraram, olharam em volta, sorriram e sentaram-se à volta da cama, onde ficou Manlau, ainda sem fala. O seu corno continuava a brilhar e a consciência da dor de cabeça voltou. Simpático, o menino dos caracóis loiros colocou-lhe a mão na testa e a dor de cabeça desapareceu subitamente, ficando o corno a brilhar ainda mais. Então o velho disse, numa voz meiga e imponente:” Eu sou o Pai Natal, aquele que todos os solstícios de Inverno viaja por este mundo fora a distribuir presentes por todas as crianças, em nome de Jesus, o Ser de Amor infinito, cuja luz ainda hoje brilha no coração de todos os seres. Este - apontando para o outro menino - é Angelito, o meu companheiro de todos os momentos, que me ajuda a espalhar a Alegria por toda a criançada e aquela menina tão pequenina e irrequieta é a fada Felicidade. Perguntas-te o que é que faço aqui, no meio do mundo infernal, e eu digo-te que te venho buscar, assim como poderei vir buscar muitos outros que, apesar de viverem na escuridão, anseiam pela luz. Tu já não és um diabo como os outros e sabe-lo. Está na altura de conheceres outras realidades, outros locais, outros seres. Podes vir comigo esta noite e eu mostrar-te-ei o que é experimentar a alegria, o entusiasmo, o amor. Depois, se quiseres, podes voltar. A escolha é tua e só tua!”.
Manlau estava estranhamente doido de entusiasmo. Nunca na vida sentira algo que se parecesse e não pensou duas vezes. Claro que iria! Só nesse momento se apercebeu o quanto estava ansioso para sair dali, o quanto se sentia aprisionado a um lugar que só lhe trazia infelicidade. E, mal disse o sim, o corno caíu-lhe da testa, deixando em seu lugar uma linda estrela brilhante que, suavemente, se foi misturando com a pele. Simultaneamente viu-se de cabeça ao léu e cheio de lindos caracóis negros. Por outro lado, o fato vermelho desaparecera, surgindo em seu lugar umas calças e camisola brancas cobertas por um manto de lã azul com capuz. Nos pés viu umas belas botas castanhas forradas a pele branca. A fada tinha feito o seu trabalho mágico! Mas no instante seguinte tiveram que sair a toda a velocidade do quarto, pois ouviram a mãe diabo gritar do andar de baixo:” Manlau, meu diabo assanhado, que luz é essa no teu quarto? Vou já aí dar-te com a vara para aprenderes a não ser tão estudioso!”
O carro, a um gesto da fada, surgiu do nada e, depois de todos se instalarem, elevou-se nos ares e voou.
Nessa noite inesquecível, Manlau viu mundos para ele inimagináveis! Cidades enormes cheias de luz, mães a adormecerem amorosamente os seus filhos, casais apaixonadamente abraçados, jovens rindo e brincando uns com os outros, seres muito luminosos a ajudarem os pobres, os sem-abrigo, os doentes, gente bem vestida a entrar em salas de espectáculo, em igrejas, carros de todos os tamanhos e cores e grandes árvores e casas todas engalanadas e iluminadas, porque se festejava o Natal. Mas viu também os da sua espécie, os diabos, a atormentar os habitantes, a tentar influenciar certas pessoas a praticarem maldades, a rirem da desgraça alheia, a deixarem escuridão por onde passassem.
Nessa noite Manlau percebeu que podia escolher ser diferente dos seus familiares e foi o que ele fez. Nunca mais quis voltar para a sua casa. A partir de então foi viver com o Pai Natal e com o conhecido povo pequenino. Tempos mais tarde, Angelito reconheceu que o seu lar tinha ficado muito mais divertido, porque Manlau lhes ensinou muitas partidas e malandrices, que eles passaram a usar, mas sem maldade.
A partir de então, Manlau volta todos os natais à sua terra, acompanhado por Angelito e Felicidade, para ver se há mais alguém preparado para partir dali. (O Pai Natal nem sempre os acompanha, porque tem muitos outros locais de infelicidade para visitar.)
Não é fácil, mas Manlau não perde a esperança e, todas as vezes que faz uma visita, deixa escondida debaixo de cada almofada uma estrelinha reluzente, que se mistura com ela e que, durante as noites de todo o ano, faz o seu trabalho de Amor, enchendo os seus sonhos de luz e incutindo, no coração dos diabinhos, muito devagarinho, o desejo de se transformarem em candidatos a anjinhos.
Neste Natal, segundo informou a fada Felicidade, Manlau e Angelito preparam o quarto para o centésimo ex-diabinho e estão imensamente felizes com os resultados das sua viagens natalícias.
21 de Dezembro de 2004
In : Histórias da vó Lu
Luisa Castro Pacheco
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